Sermão da Sexagésima Nona

Semen est verbum Dei (“a Semente é a palavra de Deus“). S. Lucas, VIII, 11.
“E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe tão longe.”


“Ecce exiit qui seminat, seminare”, ou seja, e em latim que é a língua antiga da pregação da palavra do Senhor, “Saiu o semeador a semear sua semente”. “Diz Cristo que saiu o pregador evangélico a semear a palavra divina”. É assim que se passa neste nosso reino, pequeno reino, reinozinho, onde a palavra de um pregador se faz lei mesmo que se tratem de aleivosias e coisas sem tino. De pregações sem tino e sede de ser maior entre os demais, ainda que o mandato do povo não lhe dê essa prerrogativa, se passa a um rei absoluto. De facto, Senhor lá do alto, bem sabeis que os reis absolutos são normalmente pessoas de pouco tino e que riem muito. E lá diz o rifoneiro popular que muito riso pouco sizo. E assim sai o semeador mor do reino, reinozinho, a semear a sua semente, a aspergir o povo com a sua palavra. 

São já muitas as aleivosias que o pregador tem espalhado pelo nosso reino, pequeno reino,
reinozinho. Contam-se já mais de sessenta. E é por isso que hoje trago a este auditório este sermão que Deus Nosso Senhor o Altíssimo me encomendou. O sermão da Sexagésima Nona que há de ser pregado pela noite e madrugada afora que é o tempo bom para pregações à volta do 69.

O 69 é um número par. Aliás é a única vez em que em toda a história desta numeração que se achou por bem usarmos possibilita a existência de três números pares seguidos. O 68, o 69 e o 70.

Porque o 6 tem a cabeça para baixo e a perna para cima e o 9 tem a cabeça para cima e a perna para baixo. E cabeça para cima se completa com a perna para cima e cabeça para baixo se completa com a perna para baixo. Disto dizem os homens na terra, que nós os homens de Deus disso não sabemos nem nos é permitido pelas leis da Santa Madre Igreja e seu catálogo de pecados. E dizem os homens que por ser um número de cabeça para baixo com perna para cima e cabeça para cima com perna para baixo é um número perfeito. E há os homens que passam a vida na pregação, que os tempos modernos chamam de política, que passam a vida a fazer seis e noves, uns de cabeça para baixo e outros de cabeça para cima. Desemaranhado do pensamento esta letal confusão, resta afinal o “tenent masturbationem” coisa que este humilde clérigo já não domina pois é-lhe vedada por sagração. Fica a dúvida, o dito político pensa com as cabeças de baixo ou com as pernas de cima? E sinal destes tempos modernos que Deus Nosso Senhor o Altíssimo não consegue controlar é o facto inenarrável de que as mulheres também entram nestas coisas da pregação, que é o mesmo que dizer nas coisas da política, que é o mesmo que dizer nas coisas do seis e do nove ora de cabeça para cima ora de cabeça para baixo.

E nestas coisas do 6 e do 9 ajuntados há sempre termos de comparação. E aqueles que ora andam de cabeça para baixo ora de cabeça para cima e têm a seu cargo a pregação ao povo, que não é mais do que a política, que não é mais do que a governação, gostam de comparações. Quase sempre a cabeça para cima é diferente da cabeça para baixo. E as pernas para cima comparadas com as pernas para baixo também têm as suas semelhanças e as suas diferenças. Há cabeças de homem e cabeças de mulher. Há pernas de homem e pernas de mulher.

E este sermão da Sexagésima Nona que trago a este auditório vem a propósito do pregador que se pôs a modos de comparar tempos de antanho com os de hoje, políticas antigas dos correligionários com a política dos que lhes substituíram por mor da vontade do povo e a bênção de Deus Nosso Senhor o Altíssimo.

E nestas coisas da vida cristã é de boa sapiência que se o pregador pede comparações deve o povo cumprir a solicitação. E como bons cristãos podemos e devemos falar dos exemplos das terras que os homens baptizaram em honra das coisas santas, de factos e pessoas virtuosas que a hagiografia regista.

Em terras de Santa Cruz, sagrado nome do sagrado lenho em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado, a comparação vai mergulhar no exemplo daqueles que no tempo da fartura de maná e das auríferas laranjas por ali pregaram e governaram e foram condenados pelos tribunais dos homens.

Em terras nortenhas de Santa Ana, a mãe de Nossa Senhora e avó de Jesus, Jesus o crucificado e Pai da nossa Igreja e não o pregador das virtualidades virtuosas de uma mobilidade que valha-nos Deus o Altíssimo, nessas terras andaram os pregadores de antanho a correr para o Santo Ofício da Contabilidade Pública, que os homens deste tempo chamam de Tribunal de Contas e pagaram os erros da sua pregação.

Também a norte e em terras do diácono e mártir São Vicente, o pregador mor deixa o seu povo com a consciência obnubilada na escuridão da confusão se tomarem modos de comparação. Ainda ontem negavam as virtudes das auríferas laranjas e tomavam as rédeas da sua governança e amanhã, por obra e graça da vontade do pregador mor deste nosso reino, pequeno reino, reinozinho, amanhã deixarão de adorar o demo e novamente aspergidos com o perfume das auríferas esferas cítricas.

E se recuarmos muitíssimo além no tempo remoto, ainda naquele tempo da idade das trevas, e pensarmos numa das pontas que o Sol tem a leste deste reino não há de o povo de Deus ter dúvidas sobre as virtudes da arte da governança dos homens da tez alaranjada.

E naquele Porto que os homens do reino aqui chegados há séculos chamaram de Santo quis a divina providência que as árvores se segurassem direitas sem que o pregador delas cuidasse a preceito e um dia teve que pagar pelas consequências. Exemplo terrífico, achareis vós, é bem verdade, mas Deus Nosso Senhor Pai da Humanidade quer que a verdade seja verdadeira.


Se o pregador que nos governa acha que comparar é bom, comparemos então e achemos que o tempo das auríferas laranjas foi o equivalente ao Éden onde Adão e Eva se passearam felizes pelo jardim das delícias pregando sermões da bondade do 6 e do 9 de cabeça para baixo e pernas para cima e outros números pares e que em seu perfeito mister fabricaram toda a humanidade de que somos filhos. E é por isso, caros ouvidores deste sermão em tempo quaresmal, que cuidem de procurar outras comparações por mor de cumprirmos a vontade do pregador mor deste nosso reino, pequeno reino, reinozinho.

“Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam
sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, a China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem a sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhe-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hão-lhes contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-ei com mais paço; o de lá, com mais passos: Exiit seminare.”

E saindo a semear, dando a volta por estas nossas ilhas, as primeiras a serem achadas pelos valorosos navegantes de Nosso Senhor El Rei de Portugal, dos Algarves e de Além-Mar, andaram a pregar de tal forma que se nos metermos a cumprir as ordens do pregador mor e nos metermos a fazer comparações entre os tempos das auríferas laranjas e os tempos das vestes verdinhas, como o pregador mor gosta de se referir aos que a ele se opõem a Leste, ou aos que lançaram os ventos de Mudança sobre a capital do reino, reinozinho, ai Jesus que lá vamos nós a achar que quem pede para fazer comparações não está no perfeito juízo que o senhor do Céu lhe deu.

Se o nosso pregador mor, governador deste reino, pequeno reino, reinozinho, quer comparações, devem os homens, os seus apaniguados, os que lhe amparam o manto lá no alto da Vigia, que ao troar da sua voz se curvam em genuflexões que os mantêm vergados para toda a vida, devem esses homens cuidar de não as procurar e lembrar-lhe que, como diz o povo, quem cospe para o ar cai-lhe o cuspe na cara e como o cuspe é venenoso que se cuide Sua Excelência que o Dia do Juízo Final pode começar num Outubro que poderá ser o primeiro passo para o ocaso. Deo Gratias.

“Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador!” (…) “Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei” em futuros sermões” outras matérias de grande peso e importância. Este, por agora, “servirá como prólogo aos sermões que vos hei de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.”




E quando os pregadores vão pregar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas?! Grande desgraça!”